Vítimas de acidentes de trânsito superlotam Santa Casa, diz diretor de estudos da entidade
O elevado índice de acidentes de trânsito registrados regularmente nos fins de semana, em Campo Grande, superlota o setor de traumatismo da Santa Casa de Campo Grande, o maior hospital público do Estado. Pelo menos 80% dos leitos do Pronto Socorro, da Unidade de Terapia Intensiva e do Centro Cirúrgico são ocupados pelas vítimas de acidentes no período que vai da noite de sexta-feira a madrugada do domingo, todas as semanas, revelou em entrevista exclusiva ao Midiamax o diretor da Fundação Centro de Estudos da Santa Casa “Dr. William Maksoud”, Armando Vieira de Almeida.
Recentemente Almeida promoveu a II Jornada do Trauma, evento conjunto com a VI Jornada Médica da Santa Casa. Durante os debates foram apresentados estudos comprovando que o custo médio do tratamento de cada paciente traumatizado em acidentes de trânsito está na ordem de R$ 70 mil. “A esse custo devem-se agregar todos os outros custos sociais provocados pelo trauma, tais como as despesas com os danos causados a propriedade e à perda da produção”, diz Armando de Almeida, ressaltando que atualmente, 30% do atendimento do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) é decorrente de vítimas de acidentes de trânsito. Defendendo maior rigor na fiscalização, Armando de Almeida pede o retorno imediato da fiscalização eletrônica no trânsito, como os “pardais” e radares, e destaca que a maioria dos campo-grandenses utiliza veículos não como meio de locomoção, mas como instrumento de auto-afirmação.
A Fundação Centro de Estudos da Santa Casa “Dr William Macksoud” decidiu promover junto com a VI Jornada Médica da Santa Casa a II Jornada do Trauma. O que motivou a realização destes eventos?
– Fomos motivados pelo elevado índice de acidentes de trânsito que se registra nas ruas de Campo Grande atualmente. Por isso mesmo, fizemos questão de convidar para discutir os temas conosco, além de especialistas no atendimento ao trauma, autoridades dos mais diversos segmentos da sociedade, como OAB, Polícia Militar, Detran, Agetran, Corpo de Bombeiros, representantes do Legislativo Municipal, Promotoria de Justiça e Cidadania, entre outros, culminando numa mesa-redonda coordenada pela doutora Maria Cristina Naschif, com o tema “Acidentes de Trânsito: Como Educar, Como Prevenir”.
E o que ficou caracterizado no final do debate?
- A necessidade de uma interdisciplinalidade no trânsito para amenizarmos o evento trauma. Não é só a responsabilidade de um órgão, especificamente, mas a ação e a atitude de vários órgãos atuando conjuntamente para que o evento trauma ou o acidente no trânsito sejam tratados de uma maneira mais eficaz. Não adianta, por exemplo, pegarmos a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) e determina-la que altere a engenharia de tráfego da cidade, que melhore a sinalização do trânsito ou mesmo as condições de acessibilidade nas ruas. Todas estas ações são importantes? É claro que são e precisam que sejam feitas periodicamente, mas ao mesmo tempo, precisamos ter melhorias de outros segmentos que em muitos casos a própria sociedade não tem a consciência de que também possui ações fundamentais para conter os abusos e até mesmo os acidentes de trânsito.
Como por exemplo?
– Podemos citar a Justiça, que está aí e precisa punir exemplarmente as pessoas que transgride a lei. Alías, isso é o que nos diferencia de um país de primeiro mundo ou mais civilizado. Não é pelo fato de as pessoas lá serem mais culturalmente evoluídas. É exatamente o fato de que lá as pessoas não infringem a lei porque sabem que serão punidas. Aqui, não. Está se criando uma fábrica de infratores, porque as pessoas não são punidas.
Mas para isso é necessário que se tenha maior fiscalização
- Claro que sim. Precisamos que a Polícia Militar, por exemplo, amplie o trabalho de fiscalização. Se temos a lei, precisamos fiscalizar o cumprimento da lei. E aí temos que abordar outra questão, que é a principal responsável pelo elevado índice de acidentes de trânsito hoje em Campo Grande, que é o consumo abusivo de bebidas alcoólicas. Não se dirige num país civilizado a partir do momento em que você ingeriu certa quantidade de álcool. Aqui no Brasil, você vai a um posto de gasolina, abastece o carro, ao lado possui uma conveniência, você também se abastece de bebidas alcoólicas e sai dirigindo. E esta é uma situação que se tornou comum na cidade de Campo Grande.
Há estatísticas que comprovam que a ingestão de bebidas alcoólicas é o principal fator do elevado índice de acidentes de trânsito em Campo Grande?
– Sim. Estatísticas feitas nos Estados Unidos mostram que 50% das mortes no trânsito são decorrentes do consumo abusivo de álcool. No Brasil e, especificamente em Campo Grande, consideramos este índice muito maior, principalmente porque o álcool está associado a um grande aumento na incidência e na gravidade do trauma como temos constatado diariamente na Santa Casa.
Não seria o caso de o Poder Legislativo instrumentalizar leis que possam contribuir com a redução destas estatísticas
- Claro que sim. Nosso Legislativo precisa entrar nesta batalha e atuar conjuntamente com toda a sociedade, criando leis específicas e rigorosas neste sentido. Se você tem uma legislação que não está sendo suficiente, então é preciso modifica-la ou substituí-la por uma melhor.
Foi o que o vereador Paulo Siufi (PMDB) tentou fazer ao criar um projeto de lei que proíbe a comercialização e o consumo de bebidas alcoólicas em postos de combustíveis em Campo Grande. Por pressão de vários setores, o projeto acabou engavetado nas comissões da Câmara. Como lutar contra as pressões e aprovar uma nova legislação como esta.
– Neste caso há um encaminhamento mais favorável, porque na CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) do Senado já foi aprovado projeto semelhante do vereador Paulo Siufi, de autoria do senador Marcelo Crivella. Assim, a partir do momento em que esta lei evolua na sua tramitação e seja promulgada, aí você terá que cumprir uma ordem lá de cima. Por isso, acredito que esta lei será aprovada, entrará em vigor e contribuirá de maneira significativa para a redução de acidentes de trânsito em Campo Grande.
A carta aberta à comunidade expedida após a Jornada do Trauma alerta que o momento do trânsito em Campo Grande é muito grave. O que se fazer de medidas efetivas e imediatas
– E o momento que estamos vivenciando no trânsito de Campo Grande realmente é muito grave. Tanto assim, que defendemos o retorno imediato da fiscalização eletrônica, instituindo novamente os “pardais” (radares pregados nos postes das principais avenidas da cidade). A instalação de fotossenssores também se faz necessária, infelizmente. Não é incentivar a indústria da multa, mas nossa situação é gravíssima. Temos que coibir a velocidade e a violência que se estabeleceu nas ruas da cidade. A velocidade do indivíduo que está conduzindo seu veículo é diretamente proporcional ao número e a gravidade dos acidentes. Então, estamos num momento em que precisamos punir as pessoas que abusam e se excedem da velocidade, que ultrapassam os sinais amarelo e vermelho. Infelizmente, neste momento, a única forma de coibirmos é com punição. Até porque, não temos efetivo policial para promover uma ação ostensiva, com um policial em cada esquina. A disseminação de “pardais” por toda a cidade ajudaria a conter um pouco mais o ímpeto de alguns motoristas e isso é algo que o Legislativo pode estabelecer.
E quanto ao alerta lançado para a comunidade? Qual é a real situação de gravidade hoje no trânsito de Campo Grande?
- Atualmente, se triplicarmos o número de ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e do Corpo de Bombeiros, num fim de semana não teremos condições de proceder todos os atendimentos de ocorrências. Atualmente, entre as noites de sextas-feiras e as madrugadas de domingo, 80% dos leitos do Pronto Socorro e da Unidade de Terapia Intensiva e do Centro Cirúrgico da Santa Casa são ocupados por pessoas vítimas do trauma no trânsito da cidade. Alías, foi exatamente por chegarmos a esta situação na Santa Casa, que a Fundação Centro de Estudos “Dr. William Maksoud” decidiu abordar a questão e torna-la pública.
A Santa Casa vivencia então um caos permanente nos fins de semana?
– Sobretudo nos fins de semana, porque atualmente é o único hospital da cidade que pode atender trauma, sendo referência para trauma porque só lá existe neurocirurgiões e infelizmente vivenciamos momentos em que está tudo lotado e não temos espaço físico para abrigar os pacientes. Estamos numa situação de calamidade pública. A vontade que temos é de falarmos para as pessoas: não saia de casa no fim de semana porque se você sofrer um acidente não terá como ser atendido na Santa Casa e não terá retaguarda.
Qual o prejuízo desta situação?
- Estudos e levantamentos que foram realizados nos mostram que para cada morte no trânsito dez pessoas sofrem seqüelas graves, seqüelas ortopédicas, neurológicas. Isso provoca uma conseqüência social e familiar imensurável, na medida em que o indivíduo deixa de trabalhar, deixa de produzir, a família fica prejudicada, ele terá que entrar no INSS, provocando um custo para o governo, além de ocupar um leito hospitalar que poderia estar sendo ocupado em benefício de um outro tipo de atendimento que a população careça, fora o dinheiro que é gasto nisso tudo.
Há algum levantamento sobre estes custos
– Nós trouxemos para este debate um estudo feito no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de São Paulo, que estabelece o custo médio do atendimento a paciente traumatizado em acidentes de trânsito na ordem de R$ 70 mil. E a esse custo devem-se agregar todos os outros custos sociais provocados pelo trauma, tais como as despesas com os danos causados a propriedade e à perda da produção. Portanto, o dinheiro que se gasta com estas vítimas de acidentes de trânsito é muito elevado e que poderia estar sendo destinado para outros fins.
Existe estatísticas e números que comprovam esta gravidade?
– Na realidade as estatísticas no Brasil, e sobretudo quando se refere ao trânsito, são muito falhas. Temos de real hoje em Campo Grande o seguinte: 30% do atendimento do Samu é decorrente de vítimas de acidentes no trânsito. Para se ter uma idéia, países nórdicos da Europa estão preconizando o índice zero, porque não se aceita num país desenvolvido índice de atendimentos maior do que 10% na comunidade decorrente de acidentes de trânsito. Imagina então termos um índice de 30%, o que verdadeiramente é um absurdo que não podemos mais admitir e temos que tomar atitudes imediatas. Com índices nesse nível não há ambulâncias que agüente, não há médicos que suportem e não há infra-estrutura hospitalar suficiente para suportar tal situação, que resista a este caos.
Por que isso acontece?
– Acontece pelo excesso de velocidade, pelo excesso de ingestão de álcool, a pessoa não dá valor a vida. Temos observado isso atentamente todos os fins de semana na Santa Casa. As pessoas não estão valorizando a vida. São muito individualistas no trânsito, são muito displicentes e infelizmente nas ruas de Campo Grande o carro ainda é visto como um fator que gera status. Deixou de ser um veículo de locomoção para se transformar num instrumento de auto-afirmação. Estas causas se perpetuam por falta de punição, a falta de Justiça. Nos Estados Unidos, é comum a gente ver um grande número de atores, atrizes, celebridades das mais variadas serem presos, perderem a carteira de motorista por abusarem no trânsito. Em Campo Grande, quantas pessoas foram presas ou perderam a habilitação por causa dos acidentes?
A prisão seria o melhor remédio para quem provoca um acidente de trânsito?
– Até acho que não, sobretudo porque não há espaço nos presídios. Mas a punição é necessário que aja, talvez com penas alternativas, prestação de serviços comunitários. É preciso que se crie um juizado para julga-las de imediato ou mais rapidamente.
Muito mais do que alerta a carta aberta à comunidade lançada pela Jornada do Trauma sugere uma mudança de comportamento e de atitude do campo-grandense em relação ao trânsito?
– É exatamente isso. A população precisa ter atitude para solucionar os problemas decorrentes desta questão. Por que se vê hoje em cada ônibus que circula pela cidade propagandas abordando a questão da dengue? E por que não ter também propagandas mostrando que o trânsito está nos matando, está nos trazendo seqüelas, está nos trazendo invalidez e que custa muito caro para a cidade? Precisamos neste momento de uma campanha maciça por parte do Executivo, do Legislativo, do Judiciário mostrando que o trânsito precisa ser encarado como uma doença, sobretudo porque o acidente de trânsito hoje em Campo Grande virou epidemia. Tanto é verdade, que Campo Grande hoje é a terceira cidade no Brasil no ranking de mortes por acidentes de trânsito.




